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Até o século XVIII, a vila de Santos era constituída por dois núcleos: Quartéis e Valongo, onde, em 1640, os franciscanos instalaram o referido convento. O ambiente é assim descrito Ana Lúcia Duarte Lanna, em ´Uma cidade na transição – Santos (1870-1913)`: “O Valongo, mais recente, com predomínio das funções comerciais, “composto quase que totalmente por elementos de origem portuguesa, reinóis ou ilhéus, ativos, perseverantes, mas refratários, no seu dúplice orgulho de conquistador e argentário à intromissão dos filhos da terra nos negócios principais”. O dos Quartéis era mais antigo, com predomínio das funções militares e administrativas. Aí habitava uma população de “condição modesta, que vivia da pesca, extração de lenha nos mangues e formada predominantemente por elementos de origem nacional, caboclos e mulatos, com sentimento de rancoroso nativismo.

Quando a autora se refere à área do Valongo se opondo à dos Quartéis, não se trata apenas de referência geográfica. No Valongo, instalam-se comerciantes em construções que sobrepujavam aquelas existentes nos Quartéis, parte mais antiga. Ou seja, havia uma tensão social entre os dois núcleos. Tamanha era essa tensão que neles surgiram, respectivamente, os temidos valongueiros e quarteleiros, que incluíam capoeiristas, valentões e quem mais se dispusesse a brigar. Os grupos protagonizavam verdadeiros embates para marcar território, tal qual aqueles do filme Gangues de Nova York, dirigido por Martin Scorsese (2002). O slogan que sintetizava o filme – ‘A América nasceu nas ruas’ – bem poderia ser adaptado a Santos, ainda que a preferência venha sendo dar ênfase às histórias e negociações realizadas nos grandes casarões e salões de estilo europeu. Quando se fala em ruas, são exaltados os garbosos negociadores do café transitando pela bela Rua XV e adjacências. Aliás, como veremos adiante, nas ruas jogava-se a capoeira, a pernada, fazia-se batuque, brigava-se por liberdade e trabalho. Nas ruas nasceram as escolas de samba. Não por mera coincidência, todas manifestações da população negra, todas criminalizadas, marginalizadas e perseguidas.

Como mostra Lanna, valongueiros e quarteleiros não estavam para brincadeira: “A partir de 1850, as tensões agravaram-se praticamente interditando o acesso às missas no Santo Antônio pelos quarteleiros e às da Matriz pelos valongueiros. No início dos anos 1860 as autoridades convocaram um piquete da cavalaria do governo provincial para cessar com os tumultos. A cavalaria foi derrotada pela população que teria trancado a rua com fios de arame.”

Não menos interessante é o episódio que marca a união entre os dois grupos, uma narrativa que mistura lenda e imaginário religioso, além de prenunciar os embates que viriam em nome de uma ‘modernidade’ que excluiria daquele espaço boa parte daquelas pessoas. A narrativa é inusitada e foi reproduzida em jornais da época, assim como tem sido tratada por historiadores, como o da própria Ana Lanna e o santista J. Muniz Jr.: no final dos anos 1860, houve a tentativa de demolir a Igreja de Santo Antônio do Valongo para abrir terreno à construção da ferrovia Santos-Jundiaí. Porém, a imagem do santo teria resistido à força de até 30 homens responsáveis pela demolição, que não conseguiram arrancá-la do altar. Foi então que valongueiros convocaram quarteleiros para unirem forças contra os estrangeiros que pretendiam ‘derrubar as tradições e os brios da cidade’. “Façamos uma trégua em nossas diferenças! Somos todos santistas!” Essas teriam sido as frases que levaram a população às ruas, impedindo a retirada do santo e a demolição da igreja.

(Imagem em destaque: Reprodução de quadro de Benedicto Calixto – 1865. À esquerda, vê-se o Outeiro de Santa Catarina – pequena elevação. À direita, o complexo religioso do Valongo, incluindo o ´campo santo`, antes da construção da estação ferroviária da SP Railway)

Texto: Marcos Augusto Ferreira – produzido a partir da pesquisa ´Memórias Apagadas da Terra da Liberdade`, desenvolvida como parte do Projeto Memórias, Narrativas e Tecnologias Negras.