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Santos de praias fétidas. Barris de excrementos eram despejados nas áreas de mangue, riachos e lama. (Reprodução de quadro de Benedito Calixto).

Em 1799, escravos representavam quase 50% da população da Vila de Santos. Muniz Jr. afirma que a ‘população pacata’ do vilarejo era “de 3.403 habitantes, com cerca de 1.600 escravos, muitos dos quais, conduzindo carros de boi ou carregando cadeirinhas ou liteiras, onde se acomodavam os abastados senhores e as devotas sinhás, seguindo para a igreja ou desfrutando de simples passeio, através de pitorescas cenas.” Os dados estão registrados no livro ´O negro na história de Santos` (2008), do pesquisador santista J. Muniz Jr.

Apesar de muitos tentarem escapar da servidão nas fazendas, o trabalho não era mais leve para os escravizados domésticos nas áreas urbanas. Ao contrário, era pesado e sujo, para negras e negros. Muniz Jr., valendo-se de informações trazidas na obra ´Santos-Reminiscências`, de Carlos Victorino, escreve:

“Além de apanhar água fresca pela manhã nas fontes das encostas dos morros, carregavam na cabeça os asquerosos ‘tigres’ (barris de excrementos), com as fétidas matérias fecais oriundas das escarradeiras ou dos urinóis dos seus senhores. Tais imundices eram acumuladas durante o dia em barricas ou em grandes potes que, uma vez abarrotados, eram levados, ao anoitecer, para o despejo nos rios ou ribeirões que entrecortavam a cidade, inclusive no Estuário, já que não existiam esgotos. O pior de tudo era quando, por excesso de insuportável carga, um desses repugnantes ‘tigres’ estouravam nas costas do negro carregador, numa cena degradante.”

Texto: Marcos Augusto Ferreira – produzido a partir da pesquisa ´Memórias Apagadas da Terra da Liberdade`, desenvolvida como parte do Projeto Memórias, Narrativas e Tecnologias Negras.