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Maria Patrícia foi perseguida por mulheres da elite

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Imagine como soaria aos ouvidos das elites brancas, ´europeizadas`, um lema tal como: Na terra da caridade e liberdade, somos 'filhos' da Mãe Preta. Pois é, a negra Maria Patrícia Fogaça foi parteira e trouxe à luz muitos santistas – ricos, pobres, brancos e pretos. Sua generosidade e competência perturbou madames que alegavam terem formação na Europa e não admitiam a atuação voluntariosa de uma negra. Porém, Maria Patrícia era tão admirada que até integrantes da elite, como o médico Silvério Fontes, saíram em sua defesa.

Negras eram muito requisitadas para o serviço de 'aparadeiras' ou parteiras, como é o caso de Maria Patrícia Fogaça, filha dos pretos libertos Patrício e Joana. Nascida em 1838, desde os 9 anos de idade coube a Maria Patrícia amparar a mãe, pois o pai se matou no caminho do Jabaquara, em abril de 1847. Aos 19 anos, casou-se com Levino Fogaça. Fundou, em 1883, a Sociedade Espírita Anjo da Guarda. Morreu em 1903.

Autor de ´O negro na história de Santos`, J. Muniz Jr. escreve: "Em 1871, quando a Cidade tinha 9.151 habitantes (7.545 livres e 1.606 escravos), ela já exercia condignamente a profissão que abraçou, sofrendo, inclusive, uma campanha de desmoralização devido a sua cor. E diante das hostilidades impostas por pessoas preconceituosas, contou com o apoio do Dr. Silvério Fontes que, na qualidade de conceituado médico, procurou defendê-la utilizando todo o seu prestígio junto da sociedade santista."

Maria Patrícia foi alvo de perseguição via imprensa e nas fofocas cotidianas, orquestradas por senhoras da elite, obstetrizes com formação na França, que tentaram desqualificar o trabalho de uma negra sem os 'civilizados' aprendizados. Interessante, no entanto, é saber que Maria Patrícia fez partos em mulheres negras e brancas provenientes de diferentes níveis sociais. Em razão desse trabalho, chegou a ser considerada símbolo da Mãe Preta, a mãe dos santistas.

Não encontramos registros ou estimativas da quantidade de crianças que vieram à luz pelas mãos de Maria Patrícia. No entanto, em seu livro Santos Noutros Tempos, Costa e Silva Sobrinho conta: "Maria Patrícia, solícita e dedicada, atendia todos sem distinção de classe, cor, posição social ou nacionalidade. Não fazia da profissão mercantilismo, mas encarava-a como puro sacerdócio. Ainda hoje, pelos seus cadernos de chamados, vemos com verdadeira surpresa que nos seus braços desabrochou para a vida uma geração inteira. Quase todos os filhos das pessoas mais qualificadas de então foram recebidos por ela. Assim, por exemplo, os de Belmiro Ribeiro, de Joaquim Fernandes Pacheco, de Joaquim Feliciano da Silva, de Adolfo Bastos, de Manoel Augusto Alfaia, de Lucas Fortunato, de Adolfo Milon, de Antônio Cândido Gomes, de Arlindo Aguiar, de Rodolfo Guimarães, de Luís Venâncio da Rosa, de Ricardo Pinto, do dr. Malta Cardoso, do dr. Luís Porto Moretz Sohn de Castro e de algumas centenas de outros."

O jornalista J. Muniz Jr.e, O Negro na História de Santos, destaca: "Por ocasião do seu sepultamento na quadra da Irmandade de São Benedito, no Cemitério do Paquetá, foi acompanhada por uma grande massa humana, inclusive pela banda de música do Corpo Municipal de Bombeiros. Seu túmulo ficou coberto de flores."

Maria Patrícia tornou-se, em 1951, nome de rua no Jardim Santa Maria, Zona Noroeste de Santos, entre a avenida Nossa Senhora de Fátima e o Horto Municipal. Tem, ainda, seu nome fixado na fachada da Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI) do Saboó. Ali, educadoras se interessaram por saber quem era aquela mulher que dava nome à unidade para repassar a história às mães e crianças. Guardam um pequeno acervo com recortes de jornais, desenhos, música e até uma carta, datilografada, escrita pelo bisneto de Maria Patrícia. As educadoras mantêm, ainda, um pequeno espaço dedicado à mulher que dá nome para a escola, com quadro e flores sobre mesa de vidro.

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