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O Quilombo do Pai Felipe, rei africano e batuqueiro

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Na mesma época em que Quintino de Lacerda liderava o Quilombo do Jabaquara, ali bem próximo, mais um líder quilombola se destacava, Pai Felipe. De origem africana, trazia uma longa história de resistência vivida, boa parte dela, no alto da Serra. Ao se transferir para Santos e instalar-se na área hoje conhecida como Vila Mathias, atraiu a atenção, até dos senhores da classe rica que flertavam com o abolicionismo, pelas batucadas que realizava e foi chamado de Rei Batuqueiro.

No livro ´Ventos do Mar – Trabalhadores do Porto, Movimento Operário e Cultura Urbana em Santos, 1889-1914` (Editora Unesp, 1992), Maria Lucia Caira Gitahy escreve sobre essa saga de Pai Felipe: “Não muito longe de Santos, o Quilombo do Jurubatuba abrigara escravos fugidos de Campinas, litoral e Vale do Paraíba, até sua destruição, em 1839, mas nem todos os seu habitantes foram recapturados. Em 1881, Quintino encontrou na serra um homem velho que, aparentemente, vivia na mata há muitos anos e o trouxe para Santos. Recusando-se a aceitar a autoridade de Quintino, construiu um refúgio para si e sua gente, não muito longo do Jabaquara. Quintino explicou essa atitude aos abolicionistas dizendo que Pai Felipe era um velho rei africano que não podia receber ordens de ninguém. Sua gente trabalhava cortando madeira para a construção civil e produzindo chapéus de palha.”

O jornalista e pesquisador santista J. Muniz Jr. também narra esse fato em seu ´O negro na história de Santos` (2008). Inclusive, ele considera Pai Felipe mais importante que Quintino de Lacerda. Em conversa realizada (em 05/08/2020) para a pesquisa ´Memórias Apagadas na Terra da Liberdade` (dentro do projeto Memórias, Narrativas e Tecnologias Negras na Baixada Santista), Muniz Jr. afirma:

"Quintino de Lacerda era um crioulo, o negro nascido no Brasil, ex-escravo da família Lacerda e, naquela época, muitos escravos recebiam o sobrenome dos proprietários. Foi liberto pela família Lacerda. Quando os abolicionistas de Santos – o pai do Chico Martins, Américo Martins dos Santos, era um deles – arrumaram aquele Quilombo do Jabaquara, precisavam de alguém para gerenciar e colocaram o Quintino de Lacerda lá. Era um negro forte, inteligente. Mas o Jabaquara não era bem um quilombo. Eram casas feitas de madeira e tal, porque quilombo era na mata, com água corrente. Mas já era um pessoal que vinha fugido ou liberto e o Quintino tomava conta. Já o Pai Felipe, quando ele fugiu do grande quilombo do alto da Serra, veio com um grupo de africanos. Ele tinha o rosto lanhado, com a marca da realeza, e aqueles negros que seguiam falavam no dialeto dele. Era considerado um rei africano."

Por ser um rei africano, Pai Felipe era respeitado e tratado como tal por todos os demais habitantes do seu quilombo e não quis se submeter a Quintino. Instalou-se no sopé do Monte Serrat, onde corriam cachoeiras e o Rio do Soldado. Ocupou a área onde estão, hoje, a garagem da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), duas universidades e o Centro de Esportes do Município, na Vila Mathias.  

"Ali era uma mata, não tinha casa nenhuma, só o Estradão (hoje, avenida Ana Costa). A cidade de Santos era de onde é hoje a avenida Rangel Pestana para o lado do Porto. Então, ali era mata e ele montou um verdadeiro quilombo, porque ele montou choça, tinha um trono de vime e os abolicionistas iam lá, à tarde, para ver o batuque que ele fazia. Tinha gente que reclamava do batuque, mas Pai Felipe tinha o prestígio com juiz, delegado e deixavam ele sossegado. Quando veio a Abolição (13 de maio de 1888) e Santos festejou durante três dias, Pai Felipe saiu do quilombo e foi pela Senador Feijó, que era uma estrada, até o Largo do Carmo. Ali, formou uma roda de samba, que envolveu negros e brancos. Depois, não se ouviu mais falar, porque cada negro tomou o seu caminho", diz J. Muniz Jr..

Em outro livro de sua autoria, ´Panorama do samba santista`, Muniz Jr. refere-se a Pai Felipe como o Rei Batuqueiro e apresenta diferentes versões sobre a origem do velho africano. Em uma delas, baseia-se em anúncio do semanário santista O Comercial, de 14 de abril de 1859, para sugerir a possibilidade de o líder quilombola ser um escravo fugitivo. Diz o anúncio (mantida a escrita da época):

"FUGIRÃO a Francisco Mariano Galvão Bueno, morador na Vila de Amparo, dois escravos, de nome Adão e Felippe; o primeiro é Congo de nação, 30 annos de idade mais ou menos, cor fula, estatura alta, tem dois dentes na frente abertos da parte de cima, signal de sua nação, não tem barba e tem outros signaes que por decência não se declarão senão quando for achado, foi escravo do falecido Antonio Manuel Teixeira, depois de Candido Bueno e ainda depois de Serafim Fontes Bueno, e está fugido há mais de dois anos; o segundo, é de nação Nagô, estatura menos que regular, cor preta quase fula, cara lanhada, idade 40 annos mais ou menos, tem pouca barba no queixo, fala abahianada, foi comprado a Mariano Ramos, veio do Rio, está fugido há 18 meses."

Em outra versão, Muniz Jr. recorre a ´Lendas e Tradições de Uma Velha Cidade do Brasil` (1940), de Francisco Martins dos Santos, registrando dele o seguinte trecho:

"Um negro de sessenta anos fortes chefiava então os remanescentes do Engenho de Cabraiaquara, os últimos vingadores de Nossa Senhora das Neves; era o 'pai Filipe' como todos diziam; e 'pai Filipe', sabedor da madrugada de liberdade que raiava ali mesmo perto, na Santos que ele bem conhecia, foi também para o 'Jabaquara' com toda a sua gente e, como 'rei' que era, pelos trinta anos de domínio na floresta, ficou isolado, formando um segundo núcleo do 'Jabaquara', atrás do Monte Serrat. Era o mais curioso e o mais rude dos negros recolhidos; e, aos olhos dos visitantes que lá iam aos domingos, 'pai Flipe' desenvolvia os seus batuques, seu samba africano."

Os refugiados no Quilombo do Pai Felipe trabalhavam, majoritariamente, como carroceiros, ensacadores de café e na produção de chapéus e cestos de palha. O local passou a ser frequentado por populares e lideranças abolicionistas, que nos finais de semana se deslocavam para lá para ouvir batuques e dançar o samba. "Quando havia luar, as danças aperalvilhadas prolongavam-se até à madrugada, repercutindo o soar dos atabaques por todos os recantos da cidade, pois o batuque era uma distração para os que procuravam aquele pitoresco recanto nos fins de semana. E, a exemplo do que ocorre hoje (temos leite de onça), nos momentos de pausa era distribuído quentão para todos, inclusive para os batuqueiros, que nessas porções estimulantes ficavam mais espiritados para saracotear no terreiro, rufar os adufes, agitar as cacimbas ou percutir os tambaques", escreve J. Muniz Jr.

Como Rei Batuqueiro, Pai Felipe é homenageado pelos sambistas de Santos. Toda essa história tenta-se ´guardar` na frieza de uma mera placa fixada em um muro em ruína, dentro do estacionamento da CET.

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